Jogadores

In Memorian (2017)

Este post é uma homenagem aos jogadores do Fluminense que nos deixaram ao longo de 2017.

Gílson Gênio
Gílson Wilson Francisco
20/06/1957 – 28/05/2017 (59 anos)

Gilson

Gílson foi uma das maiores promessas de uma época áurea das divisões de base do clube. Conquistou os títulos de Campeão Carioca Infanto Juvenil em 1974 e 1975, Campeão Carioca Juvenil em 1975 e 1976, da Taça Cidade de Belo Horizonte em 1976, da Taça São Paulo e do Torneio de Nice, na França, em 1977.

Para se ter uma ideia do poderio do time juvenil comandando pelo técnico Pinheiro, entre as temporadas de 1976 e 77 o Fluminense atingiu uma marca de 71 vitórias e 4 derrotas em 93 jogos. Desse time saíram jogadores como Gílson Gênio e seu irmão Gilcimar, Zezé, Arturzinho, Edevaldo, Mário, Robertinho, Tadeu e Deley.

Jogador versátil, o baixinho Gílson atuava na ponta, no comando do ataque e na meia. Estreou no profissional em 1976, aos 18 anos. Na máquina tricolor de Rivellino, Paulo César e companhia, Gílson era um garoto promissor que as vezes entrava no decorrer dos jogos. Disputou sete partidas na campanha do título de 1976. A mais célebre delas, uma vitória por 3×0 sobre o Vasco pelo terceiro turno da competição. Naquele dia o Fluminense com muitos desfalques teve que recorrer à garotada, que deu um verdadeiro baile no time de São Januário.

Seguiu atuando pelo time juvenil e eventualmente entre os profissionais, até que no Campeonato Brasileiro de 1977 conseguiu se firmar. Foi titular em boa parte dos jogos, atuando como centroavante com Cafuringa e Zezé nas pontas. Na curta campanha do Fluminense na competição foi vice-artilheiro do time com 4 gols. Dois a menos que o lateral Marinho Chagas, cobrador de pênaltis e faltas.

Em 1978 jogou ao lado de Pelé no amistoso em que o “Rei” vestiu a camisa do Fluminense, contra o Racca Rovers da Nigéria. Meses depois, com a contratação da badalada dupla Nunes e Fumanchu, perdeu espaço e passou a jogar pouco. Em 1979 foi negociado com o Bahia, encerrando sua passagem como jogador do Fluminense.

Foi ainda técnico das divisões de base do clube por muitos anos e chegou a dirigir interinamente os profissionais em duas ocasiões, a primeira em 2003 e a última em 2009.

 

Cacá
Carlos de Castro Borges
31/08/1932 – 07/06/2017 (84 anos)

Última Hora, Missão 1515-56

O ótimo lateral direito Cacá veio do América para o Fluminense em 1955. Nas Laranjeiras conquistou os títulos do Torneio Início de 1956 e do Rio-São Paulo de 1957. Este último um título muito especial por ter sido o primeiro de um time do Rio de Janeiro na competição. É até hoje também a única conquista invicta da história do certame.

Suas boas atuações pelo Fluminense o levaram a ser convocado em 1958 para a fase de preparação para a Copa do Mundo da Suécia. Logo após a convocação transferiu-se para o Botafogo. Durante os treinamentos desentendeu-se com o técnico Vicente Feola e chegou a pedir dispensa da seleção, inconformado por estar sendo escalado fora de posição. A situação foi contornada mas acabou cortado da lista final de 22 jogadores que foram ao mundial.

 

Duque
David Ferreira
17/05/1926 – 16/07/2017 (91 anos)

Duque foi um treinador de relevância para o futebol brasileiro nas décadas de 1960 e 70. Quando chegou ao Fluminense, em 1973, vinha credenciado por seis títulos pernambucanos dirigindo o Náutico e o Santa Cruz, e por uma boa passagem pelo Corinthians no ano anterior. O Fluminense estava mal. Tinha ficado em sexto lugar na Taça Guanabara, o primeiro turno do campeonato. Duque então resolveu reformular o time. No lugar dos veteranos Denílson e Gérson lançou os “garotos” Pintinho e Kléber. Passou a usar mais efetivamente também os jovens Rubens Galaxe e Marquinhos. Com sangue novo o time deu liga. Mudou da água para o vinho. Conquistou o segundo e o terceiro turno do campeonato e atropelou o Flamengo na decisão com uma vitória por 4×2 que entrou para a história do clube. Duque era também o técnico do Corinthians na semifinal do Campeonato Brasileiro de 1976, de triste lembrança para os tricolores.

Como jogador Duque também teve uma passagem pelas Laranjeiras. Atuava como zagueiro e chegou ao clube em 1952, vindo do Cruzeiro. Durante o período em que esteve no Fluminense quase sempre foi um bom reserva para o lendário Pinheiro. Conquistou os campeonatos de aspirantes de 1953 e 54. Pelo time principal totalizou 70 partidas com a camisa tricolor até ir para o Canto do Rio, em 1956.

Em 2013 foi homenageado pelo Fluminense na festa comemorativa dos 40 anos da conquista do título de 73.

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Duque (à esquerda), Emílson Pessanha (ex-jogador e supervisor do Fluminense, ao centro) e o autor deste blog (à direita) na homenagem aos campeões de 1973 realizada em 2013

 

Chiquinho
Francisco Assis da Silva Júnior
06/03/1952 – 24/08/2017 (65 anos)

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O ponta de lança Chiquinho jogou pelo Fluminense no primeiro semestre de 1979 vindo por empréstimo do Botafogo de Salvador. No futebol baiano havia sido vice-campeão estadual e vice-artilheiro do campeonato de 78 atuando pelo modesto Leônico, fato que chamou a atenção dos dirigentes tricolores.

Sua estreia pelo Fluminense foi das mais promissoras. O time jogava contra o Goytacaz no Maracanã, abrindo o Campeonato Carioca Especial, e não conseguia dobrar a retranca do adversário. Chiquinho entrou no segundo tempo e o time deslanchou, saindo de um modorrento empate sem gols para um contundente 4×0. O estreante fez um dos gols, o mais bonito da tarde acertando uma bomba de fora da área, e mudou completamente a cara do time. Sua atuação foi elogiadíssima por toda a imprensa esportiva.

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Atuação de Chiquinho em sua estreia segundo o Jornal dos Sports

Apesar do sucesso na estreia não conseguiu manter uma regularidade e consequentemente não ficou no Fluminense ao final do empréstimo. Fez 16 jogos e marcou 5 gols pelo clube.

 

Alberto
Alberto Pacheco Frazão Pereira
08/10/1935 – 13/09/2017 (81 anos)

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O Fluminense não pôde contar com Castilho no primeiro semestre de 1957. Na ocasião o maior goleiro da história do clube disputou o Campeonato Sul-Americano e as Eliminatórias pela Seleção Brasileira. Quando voltou estava com uma fratura no dedo mínimo. Uma lesão repetida que dessa vez o levaria à decisão extrema de amputar um pedaço do dedo. Nesse ínterim o goleiro Alberto, campeão juvenil em 1955, teve a chance de atuar no time profissional. Participou de diversos amistosos e foi o goleiro titular na estreia do Torneio Rio-São Paulo, contra o América. Alberto ajudou a garantir a vitória magra por 1×0 e os primeiros pontos da campanha que levaria o Fluminense ao título inédito. Para a sequência da competição no entanto o Fluminense preferiu apostar em um goleiro mais experiente e trouxe o paraguaio Victor González, do Vasco. Alberto fez um total de 18 partidas nos profissionais do Fluminense.

 

Índio
Aloysio Soares Braga
22/05/1920 – 05/10/2017 (97 anos)

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Quando faleceu aos 97 anos de idade Índio era o mais antigo jogador do Fluminense ainda vivo. Foi um dos heróis do título do Torneio Municipal de 1948 em cima do “Expresso da Vitória” vascaíno. Leia mais sobre Índio e o título do Municipal neste post.

 

Vânder
Vânder Aparecido Ferreira
26/12/1956 – 11/10/2017 (60 anos)

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O meia Vânder veio por empréstimo do Botafogo de Ribeirão Preto para a disputa do segundo turno do Campeonato Carioca de 1983. Disputou boa parte da Taça Rio suprindo seguidas ausências de Deley e Assis. O momento de maior destaque de sua passagem pelo Fluminense foi em um jogo contra o Volta Redonda, em São Januário, no qual marcou o gol da vitória (ver vídeo abaixo). No entanto o Fluminense que já tinha vaga assegurada na decisão do campeonato por ter conquistado a Taça Guanabara fez uma campanha fraca no returno. Vânder não foi utilizado nos jogos do triangular decisivo no qual o Fluminense conquistou o título estadual e no ano seguinte voltou ao seu clube de origem. Fez 9 jogos pelo Tricolor e marcou um gol.

 

Hércules
Hércules Corrêa Torres
23/03/1940 – 23/12/2017 (77 anos)

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Zagueiro formado no clube, atuou nas equipes infanto juvenil, juvenil e aspirante. Em 1959 disputou os Jogos Pan-Americanos de Chicago, nos quais o Brasil conquistou a medalha de prata. No entanto teve poucas chances no profissional do Fluminense. Participou apenas de seis jogos entre 1959 e 60. Em 1961 foi para o Madureira.

 

A linda foto de Gílson Gênio que ilustra o post é de Marcelo Tabach e foi originalmente publicada no site Museu da Pelada.

 

Índio, o mais antigo guerreiro tricolor, e o Municipal de 48

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“E Índio teve a sua maior partida no Fluminense. Foi obrigado a um esforço quase sobre humano, porque o Fluminense ficou no primeiro tempo com dez homens e no segundo com apenas nove jogadores contra onze campeões dos campeões sul-americanos. Também quando acabou o jogo Índio não se conteve mais. Deu para chorar como uma criança. O Fluminense obtivera uma das maiores vitórias de sua vida. Índio colaborara para ela, em nenhuma ocasião poderia mostrar melhor a sua dedicação” (O Globo Esportivo, No 511, 1948)

Índio era Aloysio Soares Braga. Nascido em 22 de Maio de 1920, faleceu ontem aos 97 anos de idade. Jogou no Fluminense nos anos de 1948 e 1949 e era, até ontem, o mais antigo jogador tricolor vivo. Na sua passagem pelas Laranjeiras foi titular absoluto na linha média do time que alcançou o terceiro lugar no Campeonato Carioca de 48 e segundo no de 49. Jogou ao lado de tricolores lendários como Castilho, Orlando Pingo de Ouro, Bigode, Píndaro, Didi, Pinheiro e Rodrigues. Mas contar sua história no Fluminense passa necessariamente pela conquista do Torneio Municipal de 1948. Os torcedores mais jovens podem imaginar que se trata de uma conquista de menor importância, mas não foi. Foi um título verdadeiramente sensacional pelas circunstâncias em que foi obtido.

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Índio (Esporte Ilustrado)

O Torneio Municipal era uma espécie de prévia do Campeonato Carioca. Os times que disputavam eram os mesmos. A diferença entre as duas competições é que o Carioca tinha dois turnos enquanto o Municipal apenas um.

Em 1948 o Vasco tinha seguramente o melhor time do Brasil, o famoso “Expresso da Vitória”. Os vascaínos haviam levantado o título carioca de 1947 de forma invicta e em 1948, reforçados do craque Ademir Menezes que buscaram de volta no próprio Fluminense, já haviam conquistado o Campeonato Sul-Americano de Clubes. Com este título importante assegurado o técnico Flávio Costa optou por dar um descanso aos seus jogadores titulares, que passaram a jogar apenas alguns amistosos e torneios enquanto a equipe de aspirantes, chamada de “Expressinho”, disputava o Torneio Municipal.

Mesmo sem sua força máxima o Vasco conseguiu se igualar ao Fluminense nas dez rodadas do torneio. Os dois times terminaram empatados na liderança com 16 pontos, um a frente do Flamengo. O Fluminense ainda teve a chance de assegurar o título na última rodada quando vencia o Botafogo por 1×0 até o último minuto, mas viu a taça escapar por entre os dedos com o gol de empate dos alvinegros.

Foi necessária então a realização de uma melhor de três entre Fluminense e Vasco para decidir o título. O primeiro jogo foi vencido pelo Fluminense com facilidade: 4×0. No segundo o Vasco venceu por 2×1, igualando a série decisiva. Apesar do Fluminense ter feito um placar mais elástico o regulamento da competição não previa desempate por saldo de gols. Em caso de empate no terceiro e último jogo haveria prorrogação de 30 minutos. Se a igualdade persistisse haveriam novas prorrogações de 15 minutos até que saísse um “golden goal”.

A batalha final foi disputada na noite de quarta-feira, 30 de Junho, no estádio de General Severiano. O Maracanã só seria inaugurado dois anos depois e os jogos da melhor de três teriam que ser disputados em campos neutros. O pequeno e simpático campo do Botafogo ficou lotado naquela noite com um público de 14.381 pagantes. Fora os penetras.

Quando os times entraram em campo, a grande surpresa: diferente do que havia feito ao longo de toda a competição o técnico Flávio Costa optou por levar à campo seu time titular. Os jogadores haviam se concentrado em sigilo absoluto e sua presença em campo causou verdadeiro espanto.

O cenário estava montado para uma partida sensacional. Dez dos 22 jogadores em campo estariam na copa do mundo dois anos depois: Barbosa, Ely do Amparo, Danilo Alvim, Ademir Menezes, Friaça, Chico e Maneca entre os vascaínos. Castilho, Bigode e Rodrigues entre os tricolores. No comando das equipes, dois técnicos históricos: Flávio Costa e Ondino Viera.

Não há como negar que ao escalar seus titulares o Vasco passava a ser o grande favorito ao título. Mas com a bola rolando essa superioridade não se confirmou. Mais aplicado e aguerrido em campo, o Fluminense partiu para cima e logo aos 8 minutos abriu a contagem com um gol que ficou marcado por muitos anos no imaginário da torcida tricolor. Rodrigues cruzou da ponta-esquerda e Orlando, o Pingo de Ouro, emendou uma bicicleta espetacular, vencendo o goleiro Barbosa.

O jogo foi muito disputado e até certo ponto violento. Ainda no primeiro tempo o centroavante tricolor Rubinho se contundiu. Como na época não eram permitidas substituições o atacante seguiu em campo, fazendo número. No início da segunda etapa foi a vez do zagueiro Haroldo se machucar. E o Fluminense se viu com dois jogadores inutilizados em campo. Praticamente dois a menos. Haroldo foi deslocado para o ataque e Índio assumiu seu posto na zaga.

Com esse cenário amplamente desfavorável o Fluminense resistiu heroicamente a todas as investidas vascaínas, sustentou o placar de 1×0, e garantiu um dos títulos mais dramáticos de sua história. Uma conquista com a marca de um time de guerreiros.

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Trechos da reportagem do jogo no Jornal dos Sports

Índio havia se casado naquela tarde e seguido diretamente da igreja para General Severiano. Após parar o ataque vascaíno e extravasar na saída de campo sua emoção pela heroica conquista, pôde enfim seguir para sua festa de casamento acompanhado de todos os jogadores campeões. Uma comemoração dupla, e merecida.

Descanse em paz, Índio.

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A Noite

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Jornal dos Sports

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O Globo

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Folha Carioca

A deserção de Romeu e a pacificação do futebol carioca

O extraordinário Romeu Pellicciari foi um dos grandes ídolos da história do Fluminense. Um dos maiores craques (se não o maior) de um dos maiores times (se não o maior) que o clube já teve, o esquadrão que levantou cinco títulos cariocas entre 1936 e 1941. O que pouca gente sabe é que um dia ele abandonou o Fluminense e foi para o Botafogo. Ele e Lara, outro bom jogador trazido do futebol paulista para formar aquele esquadrão.

Vivíamos os tempos da cisão no futebol carioca, que durou de 1933 a 1937. Uma verdadeira guerra fria. De um lado Fluminense, Flamengo e América, filiados à Liga Carioca de Football, e esta à Federação Brasileira de Football, entidades criadas por ocasião do surgimento do profissionalismo em 1933. Do outro Botafogo, Vasco e Bangu, filiados à Federação Metropolitana de Desportos, esta à Confederação Brasileira de Desportos, que por sua vez era filiada à FIFA.

A briga era pesada e algumas vezes suja. Certa vez, em plena disputa do Campeonato Carioca de 1936, quando o Fluminense brigava pelo título que quebraria seu jejum de 12 anos, o maior da história do clube, a CBD investiu pesadamente para tirar de Laranjeiras os principais jogadores do time: Romeu, Hércules e o goleiro Batatais. O Campeonato Sul-Americano de Seleções estava se aproximando e cabia à CBD, entidade oficial reconhecida pela FIFA, a organização da Seleção Brasileira. Os jogadores do Fluminense, filiados à outra Liga, não poderiam ser convocados. A CBD começou então a assediá-los com a promessa de jogar o Sul-Americano e depois fazer um bom contrato com Botafogo ou Vasco. A proposta era tentadora mas os jogadores resistiram. Batatais declarou publicamente que só sairia do Fluminense no dia em que o clube não mais o quisesse. Hércules também se pronunciou: “abandonar o meu clube seria loucura, eu já considero aquilo o meu segundo lar”. E após algumas semanas de suspense o Fluminense encerrou o assunto renovando antecipadamente os contratos que se encerrariam no fim do ano. Desta forma o time pôde jogar a reta final do campeonato com tranquilidade, pensando apenas em conquistar o título, o que acabou acontecendo em uma histórica melhor de três contra o Flamengo de Leônidas da Silva e Domingos da Guia.

Esse tipo de coisa era comum na época. Em 1934 o Palestra Itália escondeu seus principais jogadores (entre eles Romeu e Lara que no ano seguinte viriam para as Laranjeiras) em uma fazenda no interior de São Paulo para que a CBD, em processo de montagem da Seleção para a Copa do Mundo daquele ano, não pudesse assediá-los. Em meio a esse caos, não por acaso, em 1934 o Brasil teve sua pior participação em copas.

A última e mais pesada investida contra os craques tricolores aconteceu em 1937. Para o mês de julho daquele ano a Liga Carioca preparava uma grande atração: a vinda de um combinado argentino ao Rio para enfrentar seus três principais filiados. Era um evento muito aguardado pois os clubes argentinos da AFA só podiam jogar contra os clubes brasileiros da CBD. O combinado argentino que recebeu o nome de Combinado Becar-Varella seria portanto uma oportunidade única para Fluminense, Flamengo e América jogarem uma partida internacional, algo que o público aguardava ansiosamente.

CBD e AFA tentaram impedir esse empreendimento de todas as formas. O consulado brasileiro em Buenos Aires chegou a negar-se a dar os vistos aos jogadores argentinos, situação que atrasou o embarque da delegação portenha e só foi revertida por ordem direta do Ministério das Relações Exteriores, após entendimentos com dirigentes da Liga Carioca. Mal sucedida em seu intuito de evitar a vinda dos argentinos, o objetivo da CBD passou a ser esvaziar os jogos que estes realizariam. A estratégia foi a de sempre: aliciar jogadores do Fluminense para levá-los para o Botafogo, seu grande aliado. Romeu, Lara e Machado foram os alvos desta vez. A desfaçatez era tanta que as propostas aos jogadores eram feitas no escritório do próprio presidente da CBD, Luiz Aranha. Lá os jogadores recebiam a oferta de luvas e um alto salário com uma única imposição: não enfrentar os argentinos.

JS - Romeu e Lara treinaram

Romeu e Lara

Romeu e Lara

Machado, vendo que se tratava de uma manobra desleal com o Fluminense, abandonou as negociações, mas Romeu e Lara caíram no “canto da sereia”. Entraram em litígio com o Fluminense para obter seu passe e foram para o Botafogo. Romeu chegou a treinar no clube alvinegro mas poucos dias depois sumiu de General Severiano. Revoltados com o desaparecimento do craque alguns jogadores do Botafogo, entre eles os irmãos Aymoré e Zezé Moreira, e o ponta Álvaro, partiram para uma caçada à Romeu, protagonizando acontecimentos bizarros e até certo ponto engraçados. Procuraram o jogador em sua residência e na tinturaria da qual era sócio. Não o encontrando, ameaçaram sua esposa e fizeram vigília na porta do estabelecimento. Foi necessário que a esposa de Romeu chamasse a polícia para desbaratar a tocaia. Mas Romeu só reapareceria mesmo nas Laranjeiras, para surpresa geral. Mostrando-se arrependido, o craque acabou perdoado pelos cartolas tricolores. Amparado pelos contratos em vigor o Fluminense preparava-se para ir até o fim na luta pelos seus direitos, mas não foi necessário.

Globo1

Houve também aliciamento aos jogadores argentinos quando chegaram ao Rio. O goleiro Grippa por exemplo recebeu a mesma proposta que os tricolores: um contrato vantajoso desde que não atuasse nos jogos promovidos pela Liga Carioca. Mas recusou. No fim das contas a excursão dos argentinos foi um sucesso. O Fluminense venceu o combinado por 3×0 diante de grande público no estádio das Laranjeiras. Romeu e Lara, envolvidos na confusão, não atuaram, mas Romeu acabou ficando no Fluminense. Lara deu menos sorte: foi mesmo para o Botafogo.

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Fluminense 3 x 0 Combinado Becar-Varella (11/7/1937)

JS-galinha morta

Antes do jogo Fluminense x Combinado, tricolores e adeptos da Liga Carioca fazem chacota com a CBD: “galinha morta”

O que aconteceu depois:

Quando tudo indicava que a cisão no futebol brasileiro seguiria acirrada por mais um longo período, veio o movimento de pacificação. É bem provável que o incidente envolvendo Romeu, Lara, Botafogo, Fluminense e CBD tenha sido a gota d’água. A verdade é que nem mesmo o Vasco apoiava mais as manobras da CBD. Com novo presidente, Pedro Novaes, e novas idéias, o clube de São Januário buscava outros rumos. E partiu exatamente do Vasco e do América, este na figura de seu presidente Pedro Magalhães Corrêa, a iniciativa da paz. O movimento de pacificação se alastrou de forma impressionante. De todos os lados, de todos os clubes, da imprensa e de desportistas em geral, o apoio foi quase instantâneo. Havia um verdadeiro clamor pelo fim da cisão.

Quando Fluminense e Flamengo entraram em campo para se enfrentar pelo Torneio Aberto da Liga Carioca no dia 27 de julho de 1937, apenas 16 dias após o Fluminense vencer os argentinos, a paz já estava selada. O jogo acabou se tornando um evento festivo, uma simbólica despedida da Liga Carioca, uma vez que o Torneio Aberto sequer seria concluído. Foi uma festa de congraçamento de todas as torcidas, que lotaram o estádio das Laranjeiras para celebrar a pacificação. Com grande atuação o Fluminense venceu por 4×1. Dois dias depois, a 29 de julho, era fundada em solenidade realizada na Associação dos Empregados do Comércio, na Av. Rio Branco, a Liga de Football do Rio de Janeiro, nova entidade responsável pelo futebol carioca unificado. E no dia 31, Vasco e América se enfrentavam naquele que seria o primeiro jogo da nova Liga, sendo eternizado como o Clássico da Paz.

Após o perdão, Romeu, que já havia conquistado pelo Fluminense o Torneio Aberto da Liga Carioca em 1935 e o Campeonato Carioca em 1936, ganhou os cariocas de 37, 38, 40 e 41, o Torneio Municipal de 1938 e o Campeonato Extra de 1941. Em 1942, após longo impasse na renovação de seu contrato, acertou seu retorno ao Palestra Itália.

Zezé Moreira, o justiceiro caçador de craques desaparecidos, anos mais tarde virou treinador. Dirigiu o Fluminense em três oportunidades conquistando os campeonatos cariocas de 1951 e 1959, a Copa Rio (Mundial) de 1952 e o Torneio Rio-São Paulo de 1960. Como treinador do Fluminense chegou à Seleção Brasileira e à Copa do Mundo de 1954. É até hoje o técnico com maior número de jogos no comando do Tricolor: 474.

Ninguém é perfeito. Nem os ídolos.

Homenagem à velha guarda

Uma das atrações da Flufest ocorrida no último sábado foi a homenagem a jogadores do Fluminense das décadas de 40 e 50. Originalmente seria uma homenagem aos campeões invictos do Torneio Rio-São Paulo de 1957, título que está completando 60 anos, mas acabou sendo mais abrangente, reunindo ex-jogadores e familiares de diferentes épocas.

Idealizada pelo amigo tricolor Jorge Priori e prontamente abraçada pelo Flu-Memória e incorporada à FluFest, a homenagem contou com a presença dos jogadores Jair Marinho (orgulhosamente representando também seu amigo Altair, que por questões de saúde não pôde comparecer), Joel, Emílio, Índio e Adalberto. Compareceram ainda familiares de alguns campeões do Rio-SP de 1957 que já nos deixaram: Marli, filha do volante Jair Santana, e família, Heloísa, esposa do lateral-direito Cacá e Marlene Bahiense, irmã do volante Ivan, e família. Era esperada também a presença de Escurinho, Jair Francisco e do goleiro Alberto, mas infelizmente isso acabou não ocorrendo.

fluminense.com.br 20.07.2017

Joel, campeão pelo Fluminense em 1951, e Jorge Priori, idealizador da homenagem. Foto de Mailson Santana/Fluminense FC

O evento foi organizado pelo próprio Priori com a ajuda de José Rezende, Valterson Botelho e com uma pequena colaboração deste que vos escreve, além da imprescindível participação do Flu-Memória, através de Dhaniel Cohen e Heitor D’Alincourt. Na cerimônia realizada no parquinho os jogadores receberam presentes do clube, entregues pelo presidente Pedro Abad. Depois seguiram para o gramado do estádio Manoel Schwartz onde por tantas vezes suaram a camisa tricolor, para receber o carinho dos torcedores.

Joel, Adalberto, Jair Marinho e Emilio

Eu tietando Joel, Adalberto, Jair Marinho e Emílio

Um merecido reconhecimento àqueles que ajudaram a escrever a vitoriosa história do Fluminense. Apresento abaixo um pequeno histórico de cada um dos homenageados.

Índio

Indio

Com 97 anos de idade é o jogador mais antigo do Fluminense ainda vivo. Veio do São Cristóvão e atuou pelo Tricolor nas temporadas de 1948 e 49. Jogava na linha média, geralmente como “half-direito”, mas também como “center-half” (lateral direito e volante numa analogia com o futebol atual) sempre de rede ou boina para evitar que os cabelos caíssem nos olhos e atrapalhassem sua visão durante as partidas.

Sua grande façanha pelo Fluminense foi a conquista do Torneio Municipal de 1948. Índio foi um dos destaques da heroica resistência que o Fluminense impôs ao expresso da vitória vascaíno no jogo decisivo. Orlando Pingo de Ouro abriu a contagem logo nos primeiros minutos da partida com uma linda bicicleta e a defesa tricolor, atuando com bravura, garantiu o resultado até o fim. O Fluminense jogou quase todo o segundo tempo com dois jogadores apenas fazendo número em campo. O zagueiro Haroldo e o centroavante Rubinho se contundiram e na época não eram permitidas substituições. Foi uma autêntica proeza. Fato curioso é que Índio havia se casado naquela tarde e teve que ir da igreja diretamente para General Severiano, onde o jogo foi disputado à noite.

Outra curiosidade sobre Índio, que fez 97 jogos e 6 gols pelo Fluminense, é que ele foi um dos fundadores da escola de samba Imperatriz Leopoldinense.

Emílio

Emilio

Foi um meia que veio do Ferroviário de Curitiba (avô do Paraná Clube) e assim como Índio jogou pelo Fluminense no biênio 1948-49, participando da memorável conquista do Torneio Municipal de 1948. Fez 26 jogos e 10 gols pelo Fluminense.

Estudante de engenharia, acabou optando por abandonar precocemente a carreira de jogador, aos 24 anos, devido às dificuldades de conciliá-la com os estudos.

Fez longa e bem sucedida trajetória na vida pública ocupando cargos importantes tais como Presidente da ADEG, órgão que administrava o Maracanã, secretário de obras públicas do estado, diretor de Furnas, presidente da CBTU, entre diversos outros.

Com 91 anos de idade a memória do simpático jogador impressiona. Ainda lembra com detalhes diversos jogos em que atuou. Em especial o gol de sem pulo que marcou em um Fla-Flu de 1949 vencido pelo Fluminense por 5×2.

Adalberto

Adalberto

O goleiro Adalberto jogou 54 vezes pelo Fluminense no período de 1950 a 1955. O número relativamente pequeno de partidas se explica pelo fato de ter sido contemporâneo de dois dos maiores goleiros da história não só do Fluminense mas do futebol brasileiro: Castilho e Veludo. Quando os dois estavam na Seleção Brasileira para a disputa da Copa do Mundo de 1954, Adalberto viveu seu melhor momento nas Laranjeiras, sendo titular na campanha do Torneio Rio-São Paulo daquele ano, quando o Fluminense foi vice-campeão. Na sequência, ainda como titular, levantou o título do Torneio Início.

Como reserva, Adalberto fez parte do elenco campeão carioca de 1951 e da Copa Rio/Mundial de 1952. Nas categorias de juvenil e aspirantes foi campeão carioca por sete anos consecutivos no Fluminense. Juvenil entre 1948 e 1950, aspirante de 1951 a 1954.

Foi ainda preparador físico da Máquina Tricolor do presidente Francisco Horta nos anos de 75 e 76.

Jair Marinho

Jair Marinho

Surgiu no time juvenil do Fluminense que conquistou o Campeonato Carioca de 1955. Aquela equipe revelou uma série de jogadores que viriam a compor o elenco profissional do clube no final dos anos 50, tais como Altair, Alecyr, Romeu, Roberto, o goleiro Alberto (que também seria homenageado na FluFest, mas infelizmente não compareceu) e Écio, este último tendo jogado com mais destaque pelo Vasco.

Em 1957 fez sua estreia no profissional tendo feito parte do grupo que levantou o título do Rio-São Paulo daquele ano na reserva de Cacá (outro homenageado do dia). No mesmo ano foi campeão carioca de aspirantes.

A partir de 1958 começou a figurar como titular, sendo um dos destaques do timaço que levantou o Campeonato Carioca de 1959 e o Rio-São Paulo de 1960. Suas grandes atuações com a camisa tricolor o levaram à Seleção Brasileira, tendo sido convocado para a Copa do Mundo de 1962.

Durante um jogo contra o Botafogo pelo Rio-São Paulo de 1963 fraturou a tíbia após uma entrada violenta do atacante Amarildo, em dia de “possesso”. Durante o longo período de recuperação perdeu a posição para Carlos Alberto Torres, promovido dos juvenis, e acabou se transferindo para a Portuguesa-SP no ano seguinte.

Fez 258 jogos pelo Fluminense.

Joel

Joel

Também oriundo das categorias de base o ponta-esquerda Joel fez sua estreia no time profissional em 1948. Seu melhor momento no Fluminense foi na campanha do título carioca de 1951. Era o titular e cobrador oficial de pênaltis do time, marcando 7 gols naquela campanha vitoriosa.

Fez 61 jogos e 18 gols pelo Fluminense. Cita como jogo inesquecível a vitória sobre o Bangu por 5×3, no primeiro turno do campeonato de 51.

Foi também campeão de aspirantes em 1951 (embora fosse titular nesse ano, fez 4 partidas no campeonato de aspirantes), 1952 e 1953.

Aos 86 anos permanece ligado ao clube sendo atualmente funcionário do Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras, em Xerém.

Jair Santana

Jair Santana

Veio do Olaria em 1952 e jogou no Fluminense até 1960 totalizando 332 jogos e 8 gols pelo clube. Jogava na linha média, como volante, e colecionou títulos nas Laranjeiras, a saber: Copa Rio/Mundial em 1952, Campeonato Carioca em 1959, Torneio Rio-São Paulo em 1957 e 1960, Torneio Início em 1954 e 1956, Torneio José de Paula Júnior em 1952 e Copa das Municipalidades em 1953.

Tive a honra de conhecê-lo em 2012, durante as comemorações dos 60 anos do mundial de 52. Era então o último titular vivo daquele título.

Cacá

Caca

Oriundo do América, precedeu Jair Marinho na lateral direita tricolor, onde jogou de 1955 a 1958, totalizando 124 jogos.

Abra-se um parêntesis: com Píndaro, Cacá, Jair Marinho, Carlos Alberto Torres, Oliveira, Toninho e novamente Carlos Alberto Torres, o Fluminense teve uma sequência extraordinária de grandes laterais direitos entre os anos 50 e 70.

Cacá foi campeão do Torneio Início de 1956 e do Torneio Rio-São Paulo de 1957. Faleceu muito recentemente, no dia 7 de junho último, aos 84 anos de idade.

Ivan

Ivan

Assim como Cacá o volante Ivan veio do América, clube que defendeu por muitos anos e onde figurou em grandes times, chegando a ser convocado para a seleção. Já era um jogador na casa dos 30 anos quando foi contratado pelo Fluminense. Estreou na segunda rodada do Torneio Rio-São Paulo de 1957, quando o Tricolor goleou espetacularmente o Palmeiras por 5×1. O time se encaixou de tal forma com sua entrada que não saiu mais, atuando em todos os jogos até a conquista do título. Ficou nas Laranjeiras até 1959 totalizando 79 jogos e 6 gols.

Na próxima semana voltarei ao tema do post “Marco Zero”. Há novidades.

A imagem que ilustra o post é de Mailson Santana/Fluminense FC