Rua Marquês de Abrantes, 197. Foi aqui.

No post inaugural deste blog, Marco Zero, falei sobre a localização da casa de Horácio Costa Santos, na qual o Fluminense foi fundado. Como é sabido, a casa ficava na Rua Marquês de Abrantes, 51, na numeração da época. A novidade trazida naquele post era a declaração do fundador do clube, Alvaro Drolhe da Costa, de que ela ficava exatamente em frente à Rua Clarice Índio do Brasil.

Na verdade não era exatamente, mas quase isso. A informação dada pelo nobre fundador era um dica preciosa, mas ainda estava incompleta, vaga.

Estava.

Os documentos abaixo, obtidos na Secretaria Municipal de Urbanismo, encerram a questão. O antigo número 51 é o atual 197. Fica praticamente em frente à Rua Clarice Índio do Brasil, mas não exatamente. É necessário caminhar alguns metros à partir dali para chegar ao ponto exato.

Doc2b

Doc1b

No local hoje se encontram um prédio residencial, uma clinica veterinária e uma loja de auto-peças.

Já podemos portanto atualizar os livros de história para: o Fluminense Football Club foi fundado na Rua Marquês de Abrantes, número 51 (atual 197).

Agradecimentos: Maria Luiza Boltshauser e Anna Maria Boltshauser

Troféu Stevie Wonder

Se a FIFA instituísse essa honraria para fazer companhia ao Prêmio Puskas o bandeira que anulou o gol do Corinthians ontem seria desde já um concorrente quase imbatível, afinal, não é todo dia que se vê um impedimento tão mal marcado. Estupefato diante de um erro tão grosseiro, fiquei tentando lembrar lances semelhantes em jogos do Fluminense. Uma espécie de auto-desafio de memória e masoquismo. Lembrei de três, reunidos no vídeo abaixo.

Lance 1

O Fluminense em situação desesperadora no Campeonato Brasileiro de 1997 jogava uma de suas últimas cartadas pela permanência na Série A. O adversário era o União São João de Araras, único time abaixo do Flu na classificação. O jogo estava empatado e já se encaminhava para o fim quando André Miquimba cruza uma bola rasteira, Rogerinho passa por um mar de zagueiros e completa para o gol. O bandeira Marco Antônio Martins, de Minas Gerais, marca impedimento. Como se pode ver na imagem abaixo, congelada, haviam nada menos que cinco jogadores do União São João dando condições a Rogerinho, que ainda por cima estava atrás da linha da bola no momento do passe. Um erro digno de entrar para o Guinness.

Imped1

Lance 2

O Campeonato Carioca há muitos anos já virou um negócio tão folclórico, com tantos favorecimentos explícitos, que pouca gente ainda leva a sério. Mas as vezes eles se superam. Foi o que aconteceu na semifinal da Taça Guanabara de 2001 entre Fluminense e Americano. O Fluminense já vencia por 1×0 quando aos 11 minutos do segundo tempo, Marco Brito, em posição legal por uns cinco metros, aproveita um rebote do goleiro e marca. Além da enorme distância para o penúltimo homem da defesa do Americano (o goleiro), haviam três adversários à frente de Marco Brito no momento do chute de Agnaldo que ocasionou o rebote do goleiro. Não bastou. O auxiliar Luiz Antônio Leitão levantou seu instrumento de trabalho e o gol foi anulado. O analista de arbitragem Cláudio Vinícius Cerdeira (que expulsou dois jogadores do Fluminense na decisão do Campeonato Carioca de 1991) inicialmente diz que é “um lance difícil” (?!?), mas depois do replay muda o discurso para “erro muito grave”, um comentário mais compatível com as imagens. Pelo menos dessa vez o erro grotesco não influiu no resultado do jogo já que o placar de 1×0 se manteve até o fim.

Imped2

Lance 3

Campeonato Brasileiro de 2015, Fluminense e Corinthians se enfrentavam em Itaquera. A equipe paulista vencia por 1×0 até que aos 10 minutos do segundo tempo há um escanteio para o Flu. Scarpa cruza, Edson desvia de cabeça, a defesa do Corinthians tenta fazer a linha de impedimento mas deixa Cícero em condições. Este domina e marca o gol com facilidade. Apesar de Cícero estar em posição legal por mais de dois metros o auxiliar Fábio Pereira, da federação do Tocantins, anula o lance. O mesmo auxiliar já havia anulado um gol legal do Fluminense contra o Grêmio em Porto Alegre pela Taça Libertadores de 2013, jogo que terminou 0x0.

Imped3

Logicamente houveram centenas de outros erros de impedimento contra o Fluminense e alguns a favor, mas esses três são dignos de serem relembrados.

Homenagem à velha guarda

Uma das atrações da Flufest ocorrida no último sábado foi a homenagem a jogadores do Fluminense das décadas de 40 e 50. Originalmente seria uma homenagem aos campeões invictos do Torneio Rio-São Paulo de 1957, título que está completando 60 anos, mas acabou sendo mais abrangente, reunindo ex-jogadores e familiares de diferentes épocas.

Idealizada pelo amigo tricolor Jorge Priori e prontamente abraçada pelo Flu-Memória e incorporada à FluFest, a homenagem contou com a presença dos jogadores Jair Marinho (orgulhosamente representando também seu amigo Altair, que por questões de saúde não pôde comparecer), Joel, Emílio, Índio e Adalberto. Compareceram ainda familiares de alguns campeões do Rio-SP de 1957 que já nos deixaram: Marli, filha do volante Jair Santana, e família, Heloísa, esposa do lateral-direito Cacá e Marlene Bahiense, irmã do volante Ivan, e família. Era esperada também a presença de Escurinho, Jair Francisco e do goleiro Alberto, mas infelizmente isso acabou não ocorrendo.

fluminense.com.br 20.07.2017
Joel, campeão pelo Fluminense em 1951, e Jorge Priori, idealizador da homenagem. Foto de Mailson Santana/Fluminense FC

O evento foi organizado pelo próprio Priori com a ajuda de José Rezende, Valterson Botelho e com uma pequena colaboração deste que vos escreve, além da imprescindível participação do Flu-Memória, através de Dhaniel Cohen e Heitor D’Alincourt. Na cerimônia realizada no parquinho os jogadores receberam presentes do clube, entregues pelo presidente Pedro Abad. Depois seguiram para o gramado do estádio Manoel Schwartz onde por tantas vezes suaram a camisa tricolor, para receber o carinho dos torcedores.

Joel, Adalberto, Jair Marinho e Emilio
Eu tietando Joel, Adalberto, Jair Marinho e Emílio

Um merecido reconhecimento àqueles que ajudaram a escrever a vitoriosa história do Fluminense. Apresento abaixo um pequeno histórico de cada um dos homenageados.

Índio

Indio

Com 97 anos de idade é o jogador mais antigo do Fluminense ainda vivo. Veio do São Cristóvão e atuou pelo Tricolor nas temporadas de 1948 e 49. Jogava na linha média, geralmente como “half-direito”, mas também como “center-half” (lateral direito e volante numa analogia com o futebol atual) sempre de rede ou boina para evitar que os cabelos caíssem nos olhos e atrapalhassem sua visão durante as partidas.

Sua grande façanha pelo Fluminense foi a conquista do Torneio Municipal de 1948. Índio foi um dos destaques da heroica resistência que o Fluminense impôs ao expresso da vitória vascaíno no jogo decisivo. Orlando Pingo de Ouro abriu a contagem logo nos primeiros minutos da partida com uma linda bicicleta e a defesa tricolor, atuando com bravura, garantiu o resultado até o fim. O Fluminense jogou quase todo o segundo tempo com dois jogadores apenas fazendo número em campo. O zagueiro Haroldo e o centroavante Rubinho se contundiram e na época não eram permitidas substituições. Foi uma autêntica proeza. Fato curioso é que Índio havia se casado naquela tarde e teve que ir da igreja diretamente para General Severiano, onde o jogo foi disputado à noite.

Outra curiosidade sobre Índio, que fez 97 jogos e 6 gols pelo Fluminense, é que ele foi um dos fundadores da escola de samba Imperatriz Leopoldinense.

Emílio

Emilio

Foi um meia que veio do Ferroviário de Curitiba (avô do Paraná Clube) e assim como Índio jogou pelo Fluminense no biênio 1948-49, participando da memorável conquista do Torneio Municipal de 1948. Fez 26 jogos e 10 gols pelo Fluminense.

Estudante de engenharia, acabou optando por abandonar precocemente a carreira de jogador, aos 24 anos, devido às dificuldades de conciliá-la com os estudos.

Fez longa e bem sucedida trajetória na vida pública ocupando cargos importantes tais como Presidente da ADEG, órgão que administrava o Maracanã, secretário de obras públicas do estado, diretor de Furnas, presidente da CBTU, entre diversos outros.

Com 91 anos de idade a memória do simpático jogador impressiona. Ainda lembra com detalhes diversos jogos em que atuou. Em especial o gol de sem pulo que marcou em um Fla-Flu de 1949 vencido pelo Fluminense por 5×2.

Adalberto

Adalberto

O goleiro Adalberto jogou 54 vezes pelo Fluminense no período de 1950 a 1955. O número relativamente pequeno de partidas se explica pelo fato de ter sido contemporâneo de dois dos maiores goleiros da história não só do Fluminense mas do futebol brasileiro: Castilho e Veludo. Quando os dois estavam na Seleção Brasileira para a disputa da Copa do Mundo de 1954, Adalberto viveu seu melhor momento nas Laranjeiras, sendo titular na campanha do Torneio Rio-São Paulo daquele ano, quando o Fluminense foi vice-campeão. Na sequência, ainda como titular, levantou o título do Torneio Início.

Como reserva, Adalberto fez parte do elenco campeão carioca de 1951 e da Copa Rio/Mundial de 1952. Nas categorias de juvenil e aspirantes foi campeão carioca por sete anos consecutivos no Fluminense. Juvenil entre 1948 e 1950, aspirante de 1951 a 1954.

Foi ainda preparador físico da Máquina Tricolor do presidente Francisco Horta nos anos de 75 e 76.

Jair Marinho

Jair Marinho

Surgiu no time juvenil do Fluminense que conquistou o Campeonato Carioca de 1955. Aquela equipe revelou uma série de jogadores que viriam a compor o elenco profissional do clube no final dos anos 50, tais como Altair, Alecyr, Romeu, Roberto, o goleiro Alberto (que também seria homenageado na FluFest, mas infelizmente não compareceu) e Écio, este último tendo jogado com mais destaque pelo Vasco.

Em 1957 fez sua estreia no profissional tendo feito parte do grupo que levantou o título do Rio-São Paulo daquele ano na reserva de Cacá (outro homenageado do dia). No mesmo ano foi campeão carioca de aspirantes.

A partir de 1958 começou a figurar como titular, sendo um dos destaques do timaço que levantou o Campeonato Carioca de 1959 e o Rio-São Paulo de 1960. Suas grandes atuações com a camisa tricolor o levaram à Seleção Brasileira, tendo sido convocado para a Copa do Mundo de 1962.

Durante um jogo contra o Botafogo pelo Rio-São Paulo de 1963 fraturou a tíbia após uma entrada violenta do atacante Amarildo, em dia de “possesso”. Durante o longo período de recuperação perdeu a posição para Carlos Alberto Torres, promovido dos juvenis, e acabou se transferindo para a Portuguesa-SP no ano seguinte.

Fez 258 jogos pelo Fluminense.

Joel

Joel

Também oriundo das categorias de base o ponta-esquerda Joel fez sua estreia no time profissional em 1948. Seu melhor momento no Fluminense foi na campanha do título carioca de 1951. Era o titular e cobrador oficial de pênaltis do time, marcando 7 gols naquela campanha vitoriosa.

Fez 61 jogos e 18 gols pelo Fluminense. Cita como jogo inesquecível a vitória sobre o Bangu por 5×3, no primeiro turno do campeonato de 51.

Foi também campeão de aspirantes em 1951 (embora fosse titular nesse ano, fez 4 partidas no campeonato de aspirantes), 1952 e 1953.

Aos 86 anos permanece ligado ao clube sendo atualmente funcionário do Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras, em Xerém.

Jair Santana

Jair Santana

Veio do Olaria em 1952 e jogou no Fluminense até 1960 totalizando 332 jogos e 8 gols pelo clube. Jogava na linha média, como volante, e colecionou títulos nas Laranjeiras, a saber: Copa Rio/Mundial em 1952, Campeonato Carioca em 1959, Torneio Rio-São Paulo em 1957 e 1960, Torneio Início em 1954 e 1956, Torneio José de Paula Júnior em 1952 e Copa das Municipalidades em 1953.

Tive a honra de conhecê-lo em 2012, durante as comemorações dos 60 anos do mundial de 52. Era então o último titular vivo daquele título.

Cacá

Caca

Oriundo do América, precedeu Jair Marinho na lateral direita tricolor, onde jogou de 1955 a 1958, totalizando 124 jogos.

Abra-se um parêntesis: com Píndaro, Cacá, Jair Marinho, Carlos Alberto Torres, Oliveira, Toninho e novamente Carlos Alberto Torres, o Fluminense teve uma sequência extraordinária de grandes laterais direitos entre os anos 50 e 70.

Cacá foi campeão do Torneio Início de 1956 e do Torneio Rio-São Paulo de 1957. Faleceu muito recentemente, no dia 7 de junho último, aos 84 anos de idade.

Ivan

Ivan

Assim como Cacá o volante Ivan veio do América, clube que defendeu por muitos anos e onde figurou em grandes times, chegando a ser convocado para a seleção. Já era um jogador na casa dos 30 anos quando foi contratado pelo Fluminense. Estreou na segunda rodada do Torneio Rio-São Paulo de 1957, quando o Tricolor goleou espetacularmente o Palmeiras por 5×1. O time se encaixou de tal forma com sua entrada que não saiu mais, atuando em todos os jogos até a conquista do título. Ficou nas Laranjeiras até 1959 totalizando 79 jogos e 6 gols.

Na próxima semana voltarei ao tema do post “Marco Zero”. Há novidades.

A imagem que ilustra o post é de Mailson Santana/Fluminense FC

O Marco Zero

bilhete fundacao

Hoje é dia de festa para a torcida tricolor. Há exatos 115 anos era fundado o maior clube do planeta. o clube de Oscar Cox, Preguinho, Marcos Carneiro de Mendonça, Romeu, Hércules, Arnaldo Guinle, Nelson Rodrigues, Castilho, Didi, Telê, Pinheiro, Carlos Alberto Torres, Félix, Samarone, Lula, Rivellino, Edinho, Assis, Romerito e tantos outros.

Mas aonde exatamente o Fluminense foi fundado? Quem é tricolor e gosta um pouquinho de história está cansado de saber que no dia 21 de Julho de 1902, vinte jovens se reuniram na casa de Horácio Costa Santos, situada na Rua Marquês de Abrantes, número 51, e fundaram o clube. Está em uma dezena de livros e em algumas centenas de citações na internet.

O casarão porém não existe mais. A numeração da rua também não é mais a mesma de 1902. De modo que o local exato era um mistério entre os historiadores do clube. Alguns diziam que foi próximo ao Colégio Bennett. Outros locais já foram cogitados, mas nada conclusivo.

Alvaro Drolhe da Costa, um dos vinte fundadores, esclarece a questão. Em entrevista concedida ao Jornal dos Sports e publicada no dia 21 de Julho de 1938, por ocasião do 36º aniversário do clube, ele fala, com a autoridade de quem estava presente naquela reunião histórica:

Minha impressão sobre o Fluminense de 38? Mas se ela aí está, viva, latente, afirmando uma grandeza que a todos, novos e antigos tricolores, enche de justo orgulho! Melhor seria que eu falasse sobre o Fluminense, mas aquele Fluminense de 1902, nascido ali na Rua Marquês de Abrantes, bem em frente a atual rua Clarice Índio do Brasil. O lar da família Costa Santos, que tinha em Horácio um de seus membros, foi o berço do Fluminense. Vinte rapazes ali o fundaram quando o futebol nada mais era que um mito em nossa capital. Um grupo de jovens que apenas ouvia falar no hoje esporte das multidões. Notícias vagas que vinham de São Paulo, onde a pelota de couro arregimentava os primeiros adeptos. Ingleses do Rio Cricket e do Paysandu que falavam do assunto. Nada mais. Como se vê, terreno nada fértil para germinar o interesse pelo futebol.

Foi portanto em frente à Rua Clarice Índio do Brasil que Oscar Cox concretizou seu sonho. Hoje no local encontram-se algumas casas comerciais. É provável que o terreno do casarão dos Costa Santos tenha se desmembrado. Mas Sabendo sua localização exata torna-se viável encontrar uma foto da época.

Marco zero

A imagem acima mostra a vista da Rua Marquês Abrantes a partir da Rua Clarice Índio do Brasil nos dias de hoje. O local exato da fundação, de acordo com Alvaro Drolhe da Costa. Nosso marco zero.

Este post é também o marco zero deste blog, que será dedicado ao Fluminense, sua história, curiosidades, estatísticas e afins. Sempre buscando fugir do lugar comum, trazendo informações inéditas ou ao menos diferentes. É uma ideia que venho alimentando há alguns meses e acabei colocando em prática às pressas, embalado pelo aniversário do clube e pela empolgação da “descoberta arqueológica”. O blog ainda está meio desajeitado mas aos poucos vou arrumando a casa.

Quanto aos 115 anos, para um clube que sabidamente tem a vocação da eternidade é só o começo. Que venham mais 500.

Saudações Tricolores